Adaptações literárias caminham sempre entre fidelidade e reinvenção. No caso de O Clube do Crime das Quintas-Feiras, o romance de Richard Osman, lançado pela Netflix em 2025, é um exemplo claro desse equilíbrio. O livro original é complexo, cheio de humor britânico, múltiplos suspeitos e subtramas intrincadas, com corrupção local, disputas por expansão de Coopers Chase, crimes antigos e até tráfico de drogas. Traduzir toda essa riqueza para um filme de duas horas exigiu decisões narrativas ousadas.
O resultado é uma obra que preserva o carisma do quarteto protagonista — Joyce, Elizabeth, Ibrahim e Ron — e seu espírito investigativo, mas reorganiza profundamente o mistério. O filme mantém o coração da história, mas simplifica motivações, crimes e pistas, além de reduzir o elenco de coadjuvantes, para deixar a trama mais direta, emocional e acessível a um público amplo.
A principal mudança está na própria natureza do crime. Enquanto no livro os conflitos giram em torno de expansão imobiliária, corrupção local, tráfico de drogas e vinganças antigas, o filme introduz um esquema de passaportes falsos e exploração de imigrantes que conecta personagens como Tony, Bobby e Bogdan. Essa atualização moderniza o enredo e transforma a figura de Bogdan de vingador metódico em um sobrevivente preso em uma rede criminosa, alterando a carga ética do clímax.
Vários personagens do romance foram cortados para não sobrecarregar o espectador. Gianni, ou “Johnny Turco”, peça-chave de uma subtrama internacional, Padre Mackie, cuja função era servir como pista falsa, Bernard, importante para Joyce nos livros seguintes, além de Steve Ercan e Patrice, foram completamente eliminados. Esses cortes focam o enredo no quarteto protagonista e no mistério central, acelerando o ritmo e tornando o filme mais linear.
Por outro lado, a adaptação criou e expandiu personagens. Maud, tia de Tony e moradora de Coopers Chase, surge como uma figura inédita, adicionando camadas emocionais ao vilão e reforçando laços com os idosos. Já Bobby Tanner, praticamente uma menção distante no livro, ganha papel central no filme, se tornando o antagonista ativo que move os conflitos e desafia diretamente Elizabeth e os demais protagonistas. Essa mudança transforma o suspense e a tensão, tornando o vilão uma presença física e ameaçadora.
Outra diferença importante é o símbolo do medalhão do Clube, criado exclusivamente para o filme. Ele funciona como um rito de passagem, um gesto de acolhimento e um fechamento emocional do arco de Joyce, condensando em imagem o que o livro desenvolve ao longo de capítulos.
O ritmo da narrativa também foi ajustado para o audiovisual. O filme reduz pistas falsas prolongadas, investigações paralelas e deslocamentos internacionais, substituindo-os por evidências visuais claras, como a tatuagem de Jason, confrontos diretos e cenas de tensão com Bobby. Isso transforma a forma como o público acompanha a dedução: se no livro o leitor precisa decifrar e conectar pistas, no filme elas são apresentadas de forma rápida e objetiva, mantendo o interesse sem dispersar.
O desfecho, por sua vez, sofre alteração significativa. Enquanto o livro encerra a história como um whodunnit clássico, com revelações sobre crimes passados, o filme opta por uma resolução mais pragmática e tensa: Elizabeth negocia diretamente com Bobby para proteger o futuro de Coopers Chase. O final deixa de lado o julgamento moral estrito e passa a explorar o poder e a negociação, reforçando o caráter adulto e estratégico dos protagonistas.
A recepção da adaptação foi morna a positiva, com notas entre 6 e 7 nos principais portais. O público elogiou o elenco veterano — Helen Mirren e Pierce Brosnan foram frequentemente destacados —, a atmosfera acolhedora, o humor britânico e o protagonismo de idosos, que gerou debates sobre etarismo. As críticas mais recorrentes apontaram o mistério mais previsível, o corte de personagens que enfraqueceu o suspense, o ritmo acelerado e a percepção de que a trama funcionaria melhor como série.
Apesar dessas críticas, a adaptação teve um efeito positivo nas vendas do livro. Por ser compreensível sem leitura prévia, o filme despertou curiosidade sobre detalhes ausentes e subtramas complexas, atraindo novos leitores e ampliando significativamente o público da obra de Osman. O ciclo “adaptação acessível → aumento de leitores → vendas fortes” se repetiu, provando que, mesmo alterada, a história continua capaz de conquistar novos públicos.
Em resumo, a versão da Netflix de 2025 não tenta copiar o livro; ela o interpreta. Ao simplificar o mistério, reorganizar personagens e criar novas camadas dramáticas, o filme ganha ritmo, clareza e emoção, enquanto mantém a humanidade dos protagonistas idosos e a essência do humor britânico. É uma obra diferente, mas válida, que diverte, emociona e incentiva a leitura do romance, exatamente como se espera de uma adaptação de sucesso.
Entretanto, se você leu pode ter se decepcionado um pouco ao esperar que fosse exatamente como no livro, mas não muda o fato que o quarteto protagonistas idosos continuou investigado e o humor britânico está ali. Por outro lado, caso ainda não leu, ao meu ver será uma experiência bem diferente pegar para ler e assistir também.
Vou ser sincera, sabia que teria o lançamento da adaptação, mas é o caso de mais um livro que se tornou audiovisual que ainda não li. E depois da descoberta que ele é bem diferente da obra, talvez eu dê uma chance para assistir primeiro e depois ler. E você?
Texto escrito por: Cass Razzini
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