A Globo, na reta final de "Vale Tudo", usou com maestria o poder da dúvida para unir milhões de pessoas em volta da mesma pergunta — mesmo aquelas que estavam achando ruim o roteiro e as que nem tinham assistido a novela — não era apenas saber a resposta, era sobre fazer o país inteiro se perguntar, especular, criar teorias, discutir. O segredo estava em:

- Manter a dúvida sempre ativa, nunca dando pistas óbvias demais.

- Repetir a pergunta exaustivamente, transformando-a quase num mantra (“Quem matou Odete Roitman?”).

- Impulsionar conversas fora da tela: nas ruas, nas famílias, nos jornais, programas de auditório, publicidades, rádios e revistas.

- Não focar só no mistério, mas garantir que o mistério expandisse em todo o universo da novela, reforçando o investimento do público nos personagens.

A resposta, no fim das contas, pouco importava para o fenômeno: muitos nem lembram de imediato quem foi o assassino, mas quase todo mundo lembra da pergunta.

No universo dos livros, autores e editoras tendem a investir pesado em worldbuilding, capas elaboradas e resenhas, esquecendo do genuíno poder do mistério compartilhado. A novela mostra que:

- O viral nasce da dúvida coletiva: Uma pergunta simples, instigante e repetida tem mais alcance do que qualquer post detalhando reviravoltas ou contextos de mundo.

- Não é preciso entregar tudo, o importante é provocar o desejo de descobrir. O potencial de conversas, teorias, clubes de leitura e engajamento se multiplica quando o mistério é coletivo.

- A força da simplicidade: Uma pergunta bem feita pode unir leitores de estilos, idades e perfis diferentes, muito mais do que detalhes complexos imediatamente revelados.

Mundo literário x Televisivo: comparação da estratégia

Perceba que sempre — sempre — a atração estará na pergunta muito mais do que na resposta. A estratégia de repetir o mistério e viralizar a dúvida foi tão eficiente que o país inteiro queria saber a solução, mesmo sequer sabendo direito quem eram os personagens ou ter assistido algum capítulo da novela.

A Globo não vendeu o “quem fez”, mas o “descubra com a gente”. O mistério virou coletivo, uniu diferentes públicos, ocupou jornais, rádios, mesas de bar e salas de estar. E é justamente por aí que está o segredo: não é o estágio que conecta, mas uma curiosidade que irá unir — um dos grandes exemplos que temos hoje na literatura é o famoso “Traiu ou não traiu?” só de ouvir essa pergunta você já sabe de qual livro estamos falando.

Os escritores, assim como os roteiristas de “Vale Tudo”, podem usar esse mesmo princípio. O que prende o público não é uma construção complexa de mundo, mas uma pergunta simples, clara e instigante, capaz de transcender o imaginário coletivo.

No meio literário, isso se traduz em histórias que convidam o leitor a participar da dúvida. Que faça uma pergunta certa antes de entregar qualquer resposta. “Quem mente neste jantar?”, “Por que ela tem medo do porão?”, “O que aconteceu no dia em que ele sumiu?”.

Ao repetir uma pergunta e deixá-la nas mentes da pessoa— sem pressa de responder — o autor transforma leitores em detetives e o enredo em conversa. O mistério se torna marketing, e por curiosidade, a principal conexão afetiva entre público e obra.

Uma resposta importante, claro. Mas o que viraliza — o que marca — é o caminho da dúvida. É isso que transforma uma história comum em características culturais. 

Sem contar que hoje a maioria dos leitores tem falado muito de levar spoiler ao ler algumas coisas sobre o livro, mas isso é conversa para outra hora. Entretanto, estamos aqui para trabalhar com a narrativa, meu bem.

Então, vamos ver se criamos um lastro com o assunto?

- Crie perguntas provocativas sobre o enredo e incentive as pessoas a compartilhá-las. Exemplo: “Quem mandou aquela mensagem?”, “O que ele esconde por trás daquele sorriso perfeito?”, “E se a profecia estiver mentindo?” ou “O que ela viu na linha do tempo que mudou tudo?”

- Mantenha o mistério também nas redes: não entregue respostas cedo demais, mas alimente teorias, instigue discussões e celebrem juntos o debate.

- Utilize campanhas de divulgação que mobilizem o público para discutir: fóruns, lives, grupos de leitura e discussões abertas.

- Assuma que a jornada é tão importante quanto o desfecho. O público quer brincar de desvendar junto, não só receber uma resposta pronta.

O real segredo para escritores que buscam capturar atenção viral muitas vezes é uma boa pergunta, porque vale mais do que cem revelações. O desafio é criar esse “mantra” próprio, fácil de replicar e cheio de potencial de debate, e resistir à tentação de responder rápido. O leitor quer ser parte do jogo.




Texto escrito por: Cass Razzini

 

Acesse nosso site e adquira o livro da Cass: clubelitera.com

 

 

Siga-nos no Instagram: @literaworld_